O ano era 2017 e recordo de sentar-me nas primeiras fileiras, bem à frente de renomados palestrantes de diversas especialidades logísticas na cidade de Chicago, USA, naquele importante evento sobre os rumos da logística global.
Especialistas em e-commerce, cargas aéreas e marítimas, cabotagem, armazenagem, distribuição e demais temas de tecnologia e seus algoritmos relacionados a cadeia de abastecimento.
Como especialista e entusiasta da área de logística internacional, receber aqueles aportes sobre o futuro me trouxeram reflexões importantes, permitindo que eu tomasse decisões e ações que pudessem preparar a empresa e nossos clientes ao encontro desse futuro.
Passados cinco anos daquele evento, e a partir da pandemia, é como se novos algoritmos entrassem em cena e reconfigurassem o futuro, aquilo que escutei em meio as tantas anotações que fiz, já não existe mais!
Uma pandemia parou o mundo! Os prazos mudaram, navios ficaram parados, containers não cumprem seus ciclos operacionais, a mão de obra reduziu, o canal de Suez ficou interrompido, os portos congestionaram, o setor marítimo de navegação se concentrou, aviões de passageiros que só carregam cargas, uma guerra desencadeada em pleno século XXI, o petróleo disparou e os custos aumentaram exponencialmente.
As ocorrências acima nos conduzem a uma logística do futuro desafiadora em muitos sentidos, visto que tais eventos revelaram fraquezas e dificuldades que não eram percebidas, ou simplesmente não foram priorizadas. A soma dessas fraquezas pré-existentes aos demais temas cria um ambiente de muitas incertezas e de difícil previsibilidade.
A política de tolerância zero ao Covid-19 imposta pelo Governo Chines, adicionou um elemento importante a todo esse contexto, gerando mais gargalo mundo afora. Na falta de acesso a dados assertivos, é difícil compreender a extensão desse problema e por quanto tempo isso irá perdurar. No momento mais de 3 milhões de containers se acumulam em portos chineses aguardando para serem escoados.
Não bastassem tais desafios, no momento seis grupos econômicos controlam acima de 90% do transporte marítimo via containers, e com algoritmos cada vez mais poderosos, eles ajustam rapidamente a oferta à demanda, predizendo um futuro de pouco alívio.
Mesmo após viajar por 26 países, conhecer os principais centros logísticos do mundo (ora como palestrante, outras como aprendiz), e habituado a prestar consultoria para muitas empresas, hoje me sinto como naquela palestra em 2017, com papel e caneta a postos, pronto para registrar o que está por vir.
O momento, diferente daquele dia, não nos oferece respostas, e sendo assim, nos cumpre destacar algumas ações práticas que podem auxiliar o presente, ou ao menos, minimizar os desafios que nos foram impostos.
As sugestões abaixo, sabemos, não se aplicam a todas as operações, mas se adotadas, e se elas apoiarem algumas empresas, já me dou por satisfeito.
Ações imediatas:
— Evite navios com transbordo — se necessário e possível, leve a mercadoria até o porto principal e com viagem direta ao destino.
— Evite os portos que são mais omitidos no Brasil — mesmo com um custo adicional de transporte, opte pela descarga no porto principal
— Não se limite a categoria de container — se antes você usava sempre um determinado container, esteja aberto ao que estiver disponível. Um container de 40’, pode ser mais fácil enviar por 2x20’, um embarque usual em container de 20’, pode ser mais fácil 1x40’, e assim por diante.
— Reduza o peso dos seus containers — evite embarques acima de 20 toneladas por container, os algoritmos vão deixar a sua carga rolando para o navio seguinte.
— Solicite reservas com no mínimo 90 dias de antecedência — mesmo que implique em mudar a data quando do embarque, garanta que tenha uma reserva. Mas atenção, atualmente existem multas por cancelamento, é importante avaliar risco versus benefícios de atender seus contratos e produção.
— Tenha um Operador Logístico especialista com amplo conhecimento — mesmo que o seu contrato seja direto com a Cia. Marítima, tenha um especialista ao seu lado.
As recomendações acima são de fácil realização e podem ser iniciadas de forma imediata. Uma vez tomadas, não quer dizer que tudo ficará bem, mas certamente reduzirá os riscos de desabastecimento.
Nos próximos 10 dias, irei dividir mais recomendações técnicas, agora olhando para os próximos 06 meses. São ações, igualmente simples, e se implementadas, poderão apoiar nas estratégias e na mitigação de riscos de desabastecimento no curto e médio prazo.
E quais são suas recomendações? Como podemos ajudar os CPOs do mercado?
No longo prazo, seguimos esperando a “vacina para a logística”, e talvez estejamos como nos primeiros meses da pandemia. Logisticamente falando, lave as mãos com bastante água e sabão, use álcool em gel, se possível evitar aglomeração, se sair de casa, use máscara.
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