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A Inteligência artificial, o trabalho e a falta de sentido

O artigo de Yuval Harari sobre IA e trabalho precisa ser complementado com algumas ponderações

por André Gualtieri | Algora Auditing*

Foto de Stella Jacob na Unsplash

Em um artigo de 2017, publicado no The Guardian, e que repercutiu bastante no Brasil, o conhecido historiador israelense Yuval Harari afirma: “a maioria dos empregos que existem hoje pode desaparecer dentro de décadas. À medida que a inteligência artificial supera os seres humanos em tarefas cada vez mais, ela substituirá humanos em mais e mais trabalhos”.

Harari complementa: “o problema crucial não é criar novos empregos. O problema crucial é a criação de novos empregos que os humanos apresentam melhor desempenho do que os algoritmos”.

O artigo traz pontos interessantes. Realmente há muitas especulações em torno das coisas que ele menciona e há um risco de que elas se encaminhem nesse sentido distópico. 

Mas existem ponderações importantes que precisam ser feitas sobre as afirmações de Harari. É o que eu pretendo fazer neste artigo.

A IA e a questão do trabalho humano

Diferentemente do que Harari diz (“O problema crucial é a criação de novos empregos que os humanos apresentam melhor desempenho do que os algoritmos”), há todo um campo de atividades em que nós seres humanos fazemos as coisas melhor do que os algoritmos.

O alerta de Harari é apropriado para determinados tipos de trabalho que os seres humanos realizam, mas precisamos analisar mais pormenorizadamente o tema, que apresenta algumas facetas importantes que não foram consideradas no artigo.

Enrique Dans afirma que o ponto de partida do processo de substituição do trabalho humano por máquinas está nos chamados 4D jobs, uma expressão que se refere aos trabalhos que são perigosos (dangerous), maçantes (dull), nojentos (dirty) ou degradantes (demeaning). São trabalhos como caixa de supermercado, motorista de entrega, segurança, faxineiro, trabalhador agrícola e da construção civil. Seriam trabalhos como esses os primeiros a serem substituídos.

Recentemente, no entanto, a explosão de sistemas de IA generativa como o ChatGPT deixou mais palpável a ameaça de substituição de trabalhos considerados como intelectuais como de jornalistas ou advogados, e isso poderia acontecer inclusive antes dos trabalhos 4D.

Vejamos como o futuro vai se desenrolar. Mas para refletir sobre essas coisas, é interessante mencionarmos a explicação de Kai-Fu Lee sobre o risco de substituição do trabalho humano pela IA.

Primeiro o trabalho físico. Quanto menos social e mais repetitivo e estruturado for esse trabalho, maior as suas chances de ser substituído pela IA. São trabalhos como preparador de fast-food, inspetor de linha de produção, lavador de pratos, caixa e motorista de caminhão.

Agora o trabalho cognitivo. Ele segue regras parecidas. Quanto menos social e baseado em otimização for esse trabalho, maior as suas chances de ser substituído pela IA. São trabalhos como radiologista, contador e analista de seguros.

Uma coisa, portanto, a análise de Lee deixa clara. Quanto mais um trabalho depender de habilidade social e de criatividade, menores suas chances de ser substituído por máquinas. A razão é simples, aí estão justamente os pontos fracos da IA: falta a ela empatia, sentimento e capacidade de criação de novidades. Estas são características humanas.

Quais seriam, por exemplo, as características de um texto humano que o tornariam invulnerável ao ChatGPT? Haveria algo assim? Ou qualquer texto de um humano poderia ser também produzido por uma máquina?

A avaliação de Graebert aponta para dois fatores que, na minha opinião, aplicam-se aos diferentes tipos de textos criados por humanos:

  1. Novas informações;
  2. Conteúdos valiosos por causa de uma perspectiva subjetiva.

Os sistemas de IA são treinados a partir de modelos e, em seguida, produzem insights com base nesses modelos. Eles podem receber uma ideia ou uma pergunta e formular uma resposta com base em milhões de dados. No entanto, isso não significa que eles produzem informações genuinamente novas. São os seres humanos que trazem a novidade ao mundo.

Perceba, o ChatGPT está preso aos dados do passado, mais especificamente ele usa informações que vão até 2021. Textos com novas informações, novos insights, novas teorias, visões inovadoras sobre determinados assuntos provavelmente estarão seguros em um mundo com o ChatGPT.

Isso nos leva ao segundo fator. Se um texto traz uma experiência pessoal que o público considera valiosa por causa de sua perspectiva das coisas, o ChatGPT não é uma ameaça. A IA não tem personalidade, só os seres humanos a possuem. E é justamente essa personalidade que resulta numa maneira de pensar, de escrever que é única.

Outro ponto importante. Não há como a IA extinguir o trabalho humano, pois ela precisa de dados "limpos", o que exige trabalho humano.

Daugherty e Wilson mostram que há todo um conjunto de atividades híbridas, em que os humanos complementam as máquinas e vice-versa, de modo que atividades humanas continuam sendo necessárias mesmo num mundo altamente automatizado.

Funções que exigem liderança, ética, julgamento e criatividade permanecem humanas. Além disso, as máquinas precisam de humanos para treiná-las, explicar suas decisões e adotar medidas que garantam a sustentabilidade do modelo ao longo do tempo. Por isso, muita gente afirma que enquanto postos de trabalho são perdidos, outros são criados.

Mesmo levando em consideração essas ponderações há, um problema que Harari aponta acertadamente:

“Muitas novas profissões provavelmente aparecerão: designers do mundo virtual, por exemplo. Mas essas profissões provavelmente exigirão mais criatividade e flexibilidade, e não está claro se os motoristas de táxi ou agentes de seguros desempregados de 40 anos poderão se reinventar como designers do mundo virtual”.

Isso traz o risco de que surja uma classe de pessoas desocupadas, “que não estão apenas desempregadas, mas desempregáveis”. Não se trataria, portanto, de uma situação momentânea, mas de pessoas que estão permanentemente inaptas para a vida do trabalho.

Como lidar com um problema desse tipo? Muitos autores, como Richard Susskind, têm defendido a chamada renda básica universal. Harari faz referência a essa solução:

“A mesma tecnologia que torna os seres humanos inúteis também pode tornar viável alimentar e apoiar as massas desempregadas através de algum esquema de renda básica universal”.

O problema da falta de sentido

Mas mesmo que a renda básica universal seja algum dia implementada, ela será incapaz de solucionar o problema da falta de sentido na vida.

Como diz Viktor Frankl:

“Cada vez mais, as pessoas têm os meios para viver, mas não tem uma razão pela qual viver.” 

Mesmo que cheguemos à conclusão de que a IA causará desemprego em massa, eliminando um fator importante do qual as pessoas atualmente retiram sentido de suas vidas (o trabalho), não será uma renda mensal que vai ser capaz de recuperar esse sentido. Para a questão do sentido a resposta é muito mais complexa.

Harari até se esforça para refletir sobre uma maneira de dar sentido às massas de pessoas que a tecnologia deixaria sem ocupação.

“O problema real será, então, manter as massas ocupadas e o conteúdo. As pessoas devem se envolver em atividades propositadas, ou ficam loucas. Então, o que a classe desocupada irá fazer o dia todo?”

Ele sugere que a questão pode passar pelos jogos de computador.

“Pessoas economicamente redundantes podem gastar quantidades crescentes de tempo dentro dos mundos da realidade virtual 3D, o que lhes proporcionaria muito mais emoção e engajamento emocional do que o ‘mundo real’ externo”.

O problema do sentido é uma das maiores dificuldades que nossa época nos coloca. Sim, ele tem a ver com atividades e, por isso, a falta de trabalho torna o problema maior. Mas a questão está longe de se resumir ao trabalho.

O próprio Harari menciona os judeus ortodoxos que passam a vida inteira sem trabalhar, apenas cuidando das questões de adoração, e não  costumam enfrentar o problema do sentido em suas vidas.

A solução proposta pela renda básica universal, por exemplo, só ataca o aspecto material do problema. Mas já nos foi mostrado por pessoas como Viktor Frankl e Alexander Soljenítsin que, mesmo em condições completamente desprovidas do básico em termos materiais, as pessoas seguem retirando o sentido de suas vidas de outros elementos. Na verdade, o fato de permanecerem vivas em situações assim depende disto.

O sentido, portanto, é também um problema cultural e espiritual próprio de seres bio-psíquico-sociais como são os seres humanos. Uma única medida, como a renda básica universal ou colocar as pessoas desocupadas para passar seus dias em metaversos, dificilmente será capaz de lidar com o problema da falta de sentido que surge para o indivíduo diante do mundo tecnológico moderno.

* Algora Auditing é uma collab do Outsite

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